Ser nordestino

Por @talita.correa

A gente quase nunca se refere a quem nasce no Sul do País como sulista, ou a quem nasce no Centro-Oeste como centro-oestino. Mas todo mundo que nasce em um dos nove estados dos Nordeste é nordestino, como se fizesse parte de uma nação dentro de uma nação.

Somos a maior costa litorânea do Brasil, maior mapa do polígono das secas, fonte infinita de cultura erudita e popular , região com a maior taxa de analfabetismo e de fome no País. Um lugar de contrastes, muitos deles explicados por séculos de exclusão na dinâmica de riqueza nacional.

É preciso estudar um bocado sobre termos como “colonialismo”, “oligarquia econômica e política” e “crise do açúcar” pra entender como fomos , ao mesmo tempo, postulados como os leões do Norte da História brasileira e tratados como o cachorro miserável da família real.

A gente foi ensinado a amar nossa terra, como os índios, a honrar nossa história, como os negros, e essa herança afro indígena nos deu quase tudo que somos.  Somos fortes. Mas nos deram fama de preguiçosos enquanto levantávamos, dos anos 50 ao 70, os muros de um Sudeste de industrialização.

Temos orgulho de quem somos não por vaidade, mas por justiça e sobrevivência. Quem nos diminui ou desconhece nossa luta é um desonesto ignorante. Nosso regionalismo, nosso exagero e nossa megalomania têm licença poética, social e histórica.

É esse tipo de amor-próprio, de brio , de dignidade que faz o nordestino ser o tipo de gente que se une pra limpar, no braço, uma praia invadida por óleo. Quer vir de fuleragem pra cima da praia onde a gente trabalha? Onde a gente passou a infância chupando dudu? No litoral que a gente, sozinho, elegeu o mais bonito do mundo? Aqui não, minha joia, aqui não. Recife e Boa viagem são a prova de que nordestino não se dobra nem pra tubarão.

Podem destruir o País em arenga política e descaso. A gente faz mutirão e levanta tudo de novo. Mas dessa vez vamos contar a nossa versão da história.

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