Mulheres criam plataforma para denunciar más condutas no trabalho

O Brasil registra sete casos de assédio sexual no trabalho por dia, segundo dados do TST (Tribunal Superior do Trabalho). Em 90% das situações, a vítima é uma mulher. Os constrangimentos envolvem, principalmente, comentários de cunho sexual, piadas, insinuações, convites para sair, toques inapropriados, tentativas de beijo e de estupro, sempre sob uma ameaça, velada ou direta, de perder o emprego.

Esses dados martelaram por anos na mente da paulistana Rafaela Frankenthal, 27. Foi então que surgiu, em 2020, a SafeSpace, plataforma para comunicar, resolver e prevenir problemas de más-condutas no trabalho. O foco é ajudar as empresas a identificar problemas logo no começo, tendo uma postura mais ativa e menos reativa. “Nosso propósito é ajudar empresas a terem um ambiente de trabalho mais seguro e inclusivo”, afirma Rafaela, que tem como sócias as paulistanas Natalie Zarzur e Giovanna Sasso, 28, e a natalense Claudia Farias, 37.

Hoje a plataforma digital é capaz de prevenir, comunicar e resolver problemas de comportamento no trabalho de forma rápida, prática e eficaz, substituindo os antigos e obsoletos canais de denúncia analógicos e contribuindo para a construção de uma cultura de confiança dentro das empresas.

O SafeSpace busca tanto tratar de casos individuais graves por meio da área de compliance – e conseguir uma resolução concreta – quanto informar o RH de forma constante e anônima, gerando uma visão ampla sobre o problema. Dessa forma, o setor pode fomentar ações de educação e prevenção contra abusos dentro das empresas. “People Analytics é algo que está muito difundido fora do Brasil e aqui está crescendo. Todas as áreas usam análise de dados para aprimorar processos e o RH não pode ser diferente”, avalia a empreendedora.

Na prática, todos os funcionários da empresa assinante terão acesso a um diário pessoal em que podem registrar casos de má conduta. Os relatos são privados, marcados com data e local e, depois de salvos, não podem ser alterados. “Relatos depois de muito tempo perdem a credibilidade, o que é natural, principalmente em casos traumáticos. Então, o diário serve também para manter os registros confiáveis para quando a pessoa decidir tomar uma ação concreta”, explica Rafaela Frankenthal.

Esta ação concreta pode ser uma denúncia pessoal ou anônima ao setor responsável. Há, também, a opção de realizar uma denúncia condicional, que usa a tecnologia para dar maior segurança às vítimas – e é, na visão da fundadora, o grande diferencial do SafeSpace.

Quando um funcionário definir que deseja realizar a denúncia condicional, o relato só é enviado à área responsável se outra pessoa também registrar uma denúncia de um caso semelhante, ou contra o mesmo colega de trabalho. “Em qualquer tipo de má conduta, casos individuais são raros. Com a denúncia condicional, as pessoas se protegem no guarda-chuva das outras”, diz Rafaela Frankenthal. A empreendedora revela que a inspiração para esta solução foi o movimento “Me Too”, em que mulheres denunciaram casos de assédio no mundo todo impulsionadas e protegidas por outras que fizeram o mesmo.

Para as empresas, receber denúncia com relatos seguros e que comprovem recorrência facilita o processo de investigação, diminui custos e auxilia na promoção de ações práticas que tornem o ambiente de trabalho mais protegido. “Além de ser a coisa certa a se fazer, estudos mostram que um ambiente seguro de trabalho pode aumentar a receita e a produtividade”, conclui a empreendedora.

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