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quebra de silêncio

Vou falar pelo que sou hoje, uma mulher branca de classe média que passou a vida trabalhando para a comunicação no Brasil. Porque é essa a minha indústria, o meu mercado, o lugar onde comecei do zero, aprendi, vi, aceitei e lutei contra muita coisa. Um mercado que dita regras, mas que também absorve e promove movimentos da sociedade para agradá-la e reter sua atenção, porque a finalidade de toda indústria é conquistar audiência, ou seja, a sua atenção, seja por bem ou por mal. E, nisso, somos também coniventes. Assim que entrei na TV, no começo dos anos 80, aprendi que duas coisas garantem sucesso na tela da TV: criança fofa nos comerciais e mulheres gostosas na programação. E polêmica, muita polêmica. Os poderosos da TV, quase todos homens, sempre defenderam essa tese da ‘gostosa que traz audiência’, porque TV é imagem. E, o corpo feminino teria esse duplo poder: o de chamar a atenção masculina pela atração sexual e de atrair o olhar feminino pelo desejo aspiracional. E por que mulheres se sentiriam atraídas por corpos de gostosas na TV? Porque todas nós fomos doutrinadas a ‘agradar o homem’, a ‘servir o homem’, com nossa beleza e nossa forma física e que, ter um corpo bonito é ter o ‘poder para seduzir’. Entra década e sai década e lá estamos nós, fazendo a dieta do parafuso, da abobrinha com bombril, do giz de cera, qualquer merda, pra ter o ‘corpo ideal’ também pela dupla jornada: ‘agradar’ e ‘seduzir’ os homens e fazer inveja nas outras mulheres. (pausa para chorar de posição fetal – e voltamos) Por mais que eu tenha vontade de vomitar diante dessa visão da ‘mulher objeto’ como única opção feminina, não posso negar que inúmeras mulheres na história da humanidade conquistaram muita coisa material apenas por serem bonitas. Não sei se a explicação é a proporção áurea, a sequência de Fibonacci, só sei que a beleza corporal sempre teve poderes, que foram ampliados ainda mais na era da imagem em que vivemos. Em última instância ‘parecer’ bonita, dá dinheiro e privilégios. Talvez isso explique por quê estamos em 2018 e ainda tem programa de auditório com o  ‘balé de gostosas’, quase 7o anos depois da inauguração da Televisão no Brasil.  Porque ainda vale a mesma máxima acima, sempre o poder das  ‘etes’. Vedetes, chacretes, Hzetes, panicats. E a Internet, em nossas mãos, que poderia mudar tudo isso faz o quê? Isso mesmo, copia a TV. Lá estamos todas nós tentando ser instagrametes, storietes, bloguetes. Trabalhei em todas as emissoras abertas do país e em canais a cabo, em rádio, produtoras e, como mulher, tive que ver e ouvir todo tipo de absurdo, inclusive um ex-patrão que abaixava a calça para mostrar as nádegas para os funcionários. Por que? Porque ele podia. Já fui ’empurrada’ por um ex-chefe pra cima de um convidado que tinha intenções de ‘carimbar seu passaporte’ com alguém da TV. Já perdi uma vaga para a qual tinha sido aprovada porque o patrocinador master exigiu que  uma garota gostosa que ele estava comendo (pardon my French) fosse a apresentadora. Já fui dispensada de um trabalho por um diretor que disse que eu era muito ‘ELETIZADA’ (sic) e o povo não gostava disso. Fui tirada do ar por outro diretor em outra emissora que falou, na minha cara, que eu era muito velha pra estar no ar. Tive que deixar a apresentação de um programa que apresentava porque uma Diretora de Marketing do patrocinador disse que eu era muito feia e mulher não gosta de ver feias na televisão.  Lembro que esse foi um dia que chorei muito, aquele choro que arranca lágrimas velhas, que parecem ter sido geradas desde a infância. Para manter meu emprego e entrar no figurino 38 dos showrooms, que emprestam roupas para a TV, exigiram que eu perdesse 7 quilos ou usasse um corpete de elástico (ou de tungstênio?) para ‘parecer mais magra’ na tela, porque gorda não entra.  Em outro trabalho, fui instruída pelo patrão para demitir uma famosa (que passou a me odiar publicamente) porque ele mesmo não tinha coragem de fazê-lo. Uma amiga apresentadora, com quem dividi bancada há muitos anos, contou que foi obrigada a ‘alisar o cabelo ondulado’ porque um diretor da emissora onde ela trabalhava disse que ‘cabelo ondulado é coisa de pobre, rico tem cabelo liso’. E apresentadora de TV tem que ter cara de rica, porque ‘pobre não quer ver pobre na TV’, segundo informou o senhor. Já dei um tapa na cara de um entrevistado que queria mais do que minhas perguntas. As cantadas e os assédios que não geraram violência física foram tantos que mereceriam uma série.  O assédio ‘intelectual e ideológico’ então, daria uma enciclopédia. Aqui, uma pausa dramática: certeza que algum imbecil, de qualquer gênero, deve ter rido em algum lugar desse texto. Porque, como disse uma vez um ser humano famoso com o qual trabalhei,  ‘mulher feia não serve nem pra ser prostituta’. Sim, há pessoas que acham que .. (gente, tô passando mal, mas vou ter que escrever isso) “o assédio é um PRIVILÉGIO das mulheres bonitas". Assim, quando eu ou outras  mulheres comuns dizem que sofreram assédio, abuso ou até estupro, tem gente que ri e questiona ‘você??!?! duvido!’. Fim da pausa. E, sim, trabalhei em muitos lugares bacanas, onde não existia nenhum, mas nenhum tipo de abuso, assédio moral, onde mulher recebia o mesmo que homem e onde seu gênero nem ao mesmo importa. Porém, ainda não sei porque mulher do tempo tem que ser magra e usar salto alto; não entendo porque tem que ter balé exclusivamente feminino, (não tem bailarino dançando na TV, tem?). Não sei por que assistente de palco tem que ser mulher gostosa de biquini. E sempre mulheres BRANCAS! De vez em quando alguém ‘lembra que pega mal’ e bota uma mulher negra como assistente ou dançarina, meio que pra ‘cumprir a cota’. E por que eu estou nesse indústria há tanto tempo mesmo assim? Primeiro, há muitos anos não aceito mais qualquer tipo de trabalho, só se for lugar legal com gente bacana. Felizmente, juntei um dinheiro pra me sustentar quando fico desempregada, pra segurar a onda e não ter que me sujeitar a esse tipo de abuso. E se faltar grana, eu vendo o que tiver, menos minha dignidade. (Já recusei um super salário pra apresentar um programa feminino diário porque me recusei a vender certos ‘remédios’ que só enganam as pessoas.) Segundo, porque Oprah deu a resposta em seu discurso no Globo de Ouro 2018 ao homenagear sua mãe e tantas mulheres que perseveraram apesar de terem visto e sofrido  tanto abuso: – porque temos filhos pra criar, contas pra pagar e sonhos para alcançar. A gente aguentou, aguenta, mas não vai mais aguentar. Porque “time’s up”. E agora é a vez de dizer a verdade, de denunciar tudo o que é errado. Mais do que isso, gente, é hora de parar de idolatrar as nulidades, de promover imbecis, de bater palma pra loucos, de enriquecer idiotas. Seja na TV ou na Internet ou qualquer outro lugar. Vamos parar de cultuar qualquer um que faz barulho e não tem talento nem mensagem, só interesse em fama e fortuna. Vamos dar um basta em polêmicas tontas que só dão audiência para os que nos controlam. Vamos abrir os olhos, as mentes, os corações e construir um mundo igual, justo, feliz. E sem hipocrisia. O silêncio acabou.