O Barulho da Fechadura – História e Poesia

por Solange Santos

Sempre aos sábados pela manhã, o som da fechadura soava diferente. Da minha cama deitada, eu podia ouvir aquele barulho da chave abrindo a porta. Era sempre uma alegria ouvir aquele ruído e em seguidas os passos e a respiração ofegante. De alguém que acabara de subir vários degraus até minha porta. Mas por que ela vinha até a mim toda semana? Abandonando seus afazeres, sua vida, sua rotina, seu conforto? Parecia um sacerdócio, uma missão que assumira e que tinha a obrigação de ser fiel ao compromisso.
E assim ela agiu por muitos anos, todo sábado lá estava ela abrindo uma porta. Sim, foram várias portas que ela abriu. Muitas mudanças aconteceram ao longo dos anos. Mas ela sempre ganhava uma chave do novo lugar. Lugares diferentes, mas lá dentro sempre estava eu, a principal razão das suas visitas e de seus cuidados.

De repente a fechadura perde aquele barulho inconfundível, que anunciava sua chegada. Da minha cama, sempre é difícil levantar aos sábados e saber que ela não vai estar lá na sala, sentada fazendo seu crochê, aguardando para me ver e receber de mim aquele beijo de bom dia. Em seu olhar eu podia ver tanto amor, tanta doação, tanto cuidado…

Já é madrugada agora. A vontade que sinto é de continuar acordada e me iludir que ainda é sexta e não sábado. Às vezes me pego a imaginar que ouvirei novamente aquele Barulho da Fechadura. Sinto falta das coisas boas que vivemos, do seu companheirismo, do amor que sei que jamais irei sentir outro igual. Amor de mãe é único, eterno. E quando nos vemos sem ele, sentimos falta de equilíbrio. Ela se foi da minha vida, nunca mais ouvirei sua respiração, seus passos, não sentirei mais seu cheiro e seu amor. Nunca mais ouvirei aquele som da fechadura anunciando sua chegada. Porém meu coração vai continuar a bater forte toda vez que minha mente imaginar o ‘Barulho da Fechadura’.

 

Foto: Pacífico Medeiros

Comunicóloga graduada pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN – Poetisa nas horas da vida.

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