Mulheres, tenham autocompaixão e sejam amigas de si mesmas

Por Gabrielle Picholari

Nós, mulheres, enfrentamos desafios diários ao ocupar postos de liderança e gerir equipes. Os obstáculos não envolvem apenas as dificuldades na operação do dia a dia do negócio mas também nos mecanismos que precisamos desenvolver para provar que merecemos nossos postos no mercado de trabalho. É aquele olhar de julgamento sobre o feminino, cuja raiz está na desigualdade de gênero, estrutura que só deve mudar completamente em cerca de 217 anos, segundo o Fórum Econômico Mundial.

Há um preço emocional em fazer parte dessa maratona. Coloque na conta todas as vezes em que já quis pedir ajuda e não o fez para não demonstrar vulnerabilidade; os momentos em que se fechou por medo de parecer fraca ou de sofrer algum tipo de rejeição. Estamos acostumadas às noções rígidas e polarizadas de conceitos como certo e errado, mérito e punição, pertencimento e exclusão. A educação formal, familiar e a cultura nos arrastam para juízos de valor e sentimentos destrutivos – tais como culpa, crítica e comparação com o próximo. Tudo isso é catalisado pela pressão de não errar. Vendo assim, parece difícil mudar, mas não é impossível.

Na tradição tibetana, a compaixão é reconhecida como a mais alta expressão de nossa humanidade. Para sermos verdadeiramente compassivos, precisamos nos aceitar – inclusive nas fragilidades. É desse acolhimento que nasce o autoperdão, prática fundamental para nossa estabilidade emocional na vida pessoal, no trabalho ou na gestão de equipes. A autocompaixão é uma forma de cuidado e uma poderosa ferramenta na busca do propósito. Com o tempo de prática, contribui com a pacificação de diálogos internos, diminuindo críticas severas diante de uma falha, modificando comportamentos improdutivos e dando coragem para fazer as mudanças necessárias.

Entretanto, pesquisas apontam que, apesar de a autocompaixão estar presente entre as mulheres que ocupam posições de decisão no meio corporativo, o paradigma de liderança que ainda prevalece é o do patriarcado, baseado em competências e com valores associados ao masculino. É hierárquico e centralizador, entrando naquela história de recompensa e punição.

O desafio está em romper essa lógica. Marshall Rosenberg, o criador do método da comunicação não violenta, aponta caminhos. Ele afirma que um aspecto importante da autocompaixão é a capacidade de abraçar empaticamente as duas partes de nós mesmos: a que se arrepende de alguma ação passada e a que a realizou. Se somos pouco tolerantes e bondosos com nós mesmos, essa atitude provavelmente se manifestará também nas interações com os outros, especialmente com aqueles que amamos, lideramos e com quem convivemos e trabalhamos.

Há ainda novos ventos no modo como produzimos. Os negócios do futuro tendem a não se restringir à geração de lucro, de renda e de empregos, abarcando também a manutenção dos valores de bem-estar social. Estamos recriando a gestão, e ela é mais altruísta, se importa mais com as pessoas e com o propósito do empreendimento do que com egos e ganhos pessoais. Busca o “poder com” e não o “poder sobre” as coisas e pessoas.

Enquanto isso, se estiver diante de um momento desafiador, lembre-se de que tudo o que é importante na nossa vida envolve risco. Lançar-se às possibilidades, sejam elas de fracasso ou sucesso, sempre trará aprendizado. Transforme-se na sua melhor amiga e apoiadora. Dê o melhor para si mesma, mas sabendo que isso também vai repercutir na sua comunidade. O autocuidado deve permear a vida. Só assim nos importaremos menos com os julgamentos e mais em sermos boas para nós e para os outros.

*Gabrielle Picholari é coach de saúde integrativa e especialista em desenvolvimento humano. Escreveu Autocompaixão: a Essência da Felicidade. 

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