A porta que anuncia a vida, também anuncia a morte! – História e Poesia

por Solange Santos

Na sala de espera, todos aguardam por notícias. As mãos trêmulas, suadas, coração palpitando, passos para lá e para cá. Cada vez que a porta se abre, os olhos ficam atentos na torcida para ouvir que tudo vai bem. Primeiro sai um homem sorridente, nas mãos, a câmera com as fotos da suas gêmeas que acabara de nascer, a família que o aguardava, vibra com as boas novas. Mais mulheres saíram por aquela porta com seus filhinhos entre as pernas e a felicidade estava estampada em cada rosto que esperava ansioso. A esperança que também sairíamos sorrindo era grande. Porém as horas passam, a angústia começa a tomar conta do nosso ser. O que se passa? Por que a demora?

Chega a primeira notícia, “ela responde bem a cirurgia porém, perdeu toda a bexiga”. As lágrimas começaram a rolar, o desespero começa a tomar conta. Como contar? Pensávamos que esse era o grande problema, o tempo parecia ser eterno, só queríamos ouvir que tudo acabara bem. Após 7 horas de espera, o anúncio dos médicos. “A cirurgia acabou, porém ela teve complicações, não sabemos o que de fato aconteceu”. Se eles não sabiam explicar tão pouco, nós.

Enquanto se esperava sua saída do centro cirúrgico para a UTI, o choro se misturava ao som da canção de um coração aflito, que buscava naquela melodia, refrigério para as suas almas. Daí a lembrança de como ela entrou naquele lugar, serena, porém, com aflição nos olhos, de alguém que temia não sair daquele lugar e não saiu mesmo, não era a mesma que entrou. Abraçou e beijou sua filha mais nova mas não parava de perguntar pela outra, que tinha ido resolver algumas documentações para a cirurgia.

Minutos depois a cena mais linda, a mais tocante. A outra filha aparece correndo nos corredores para ver sua mãe mas ela já tinha entrado. A filha pede a enfermeira para vê-la e ela permite. A mãe aparece e dar aquele abraço e sem dizer uma palavra, disse muito. “Estou com medo, me proteja, não quero morrer, quero ficar com vocês”. A filha acalenta e faz ela acreditar que tudo vai dar certo, “vamos estar aqui te esperando meu amor”! Saindo dos braços da sua filha mais velha, seu anjo protetor, olha para a sua caçula, manda-lhe um beijo e com a mão estendida parecia dizer, “adeus”.

Ao sair daquele lugar, onde horas antes muitas vidas foram anunciadas, ela passa, deitada em uma maca, entubada e desacordada. Podia-se sentir o cheiro da morte, o desespero tomou conta. Aquela mulher que outrora era forte, agora era só fragilidade.

Quatro noites na UTI sem falar, só mexendo os olhos e testa numa expressão de dor. Mas sempre ao seu lado estava um dos seus anjos, sempre sussurrando ao seu ouvido: “sei que está difícil mãe, mas aguenta firme, não vou te abandonar”. Quando chegava a hora da visita, o outro anjo aparecia e lhe perguntava baixinho: “mãe quer que eu cante para a senhora”? Com um certo esforço conseguia mexer a cabeça respondendo que sim. Seu anjo cantava para acalmar ambos os corações.

25 de janeiro de 2016, às 21:40, aprouve a Deus encerrar com a sua dor e a levou para perto Dele. Seus anjos sofrem de saudade, mas certos que ela está bem. Agora o que resta são as lembranças de uma mãe que se foi. Mas é melhor amar em lembranças do que não amar.

Foto: Pacífico Medeiros

Comunicóloga graduada pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN – Poetisa nas horas da vida.

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